Ismael Iglesias
Desde 1929 no mês de novembro, em Alba, Piemonte, Itália, há a feira do tartufo bianco, ou trufa branca, uma iguaria rara, de um aroma e sabor peculiar e fantástico, de difícil “caça ou colheita” que transforma o centro da cidade numa pequena vila medieval, quando as pessoas se vestem a caráter, com muitas barracas vendendo comidas típicas com ou sem a iguaria, jogos típicos, exposição e demonstração de ferramentas da época, como cunhar moedas, fazer sapatos, cordas, separar a lã fiar e tecer.
Em novembro de 2011, dois amigos e eu, tivemos uma oportunidade mágica de a gente ir até essa feira e ainda de ficar hospedados na foresteria da Vinícola Batasiolo, com direito a “degustar” todos os tipos de vinhos por eles elaborados que estavam disponíveis numa adega climatizada, Ah! isso fizemos direitinho.

Foresteria da Vinícola Batasiolo, onde ficamos hospedados

Cacho de Nebbiolo remanascente da colheita do Vigneto Bofani

Barolos de vinhedo da Batasiolo

Salão da Foresteria com lareira ao fundo
O local era maravilhoso, no meio de um dos seus vinhedos de Barolo, o Vigneto Bofani, com dezenas de suítes, salão com lareira e, evidentemente, uma adega com mais de duzentos vinhos a nossa disposição e para nosso deleite, uma tremenda cozinha industrial que aproveitamos muito.
Existem várias espécies de tartufo, ou trufa, sendo a branca a mais apreciada valiosa, ou, Tuber magnatum pico, que se desenvolve somente nas regiões do Piemonte, próximo a Alba e em algumas regiões da Emiglia-Romagna. Até hoje não é possível cultivá-lo, sendo que a caça ou colheita vai de setembro até janeiro.
Seu nome se deve ao médico piemontese Vittorio Pico que em 1788 o definiu como “tartufo dei magnati”, que devido ao preço elevadíssimo, possibilitava que somente aos ricos conseguissem adquirir. A melhor maneira de consumo é cru, e o mais rápido possível após a colheita, porque com o tempo e o cozimento, suas melhores qualidades são perdidas, também deve ser utilizado na finalização dos pratos, onde o calor da comida libera os aromas. Os pratos mais indicados para seu uso são o Batuto ou Carne Albanesa, que consiste em filé batido na ponta da faca, condimentado com sal, pimenta do reino, azeite e lâminas de tartufo e o ovo frito na manteiga com lâminas da iguaria. Os melhores tartufos têm um aroma de alho, mel e feno. Deve-se que tomar muito cuidado com as imitações, porque existem produtos que vem de outros países sendo vendidos como Tuber magnatum pico, mas que o aroma não é nada bom e o sabor é de madeira, serragem, diferente do sabor do verdadeiro que lembra castanhas, muito agradável.

Bandeja de tartufos biancos da loja onde compramos, com indicação
Existem também os tartufos neros, trufas negras (Tuber melanosporum), alguns muito bons, porém são inferiores às brancas, algumas famosas, como as trufas negras francesas do Perigod e algumas italianas excelentes, especialmente de Norcia e de Spoleto. Estas crescem durante o período de inverno, em terrenos calcareos e não muito úmidos, especialmente nos primeiros meses do ano. Deve-se tomar cuidado porque vendem o Tuber indium, que é encontrado na África, como sendo o Tuber melanosporun. Existem outras variedades, porém com pouco aroma e sabor, como os Tuber aestivum (scorzone), encontrados na Europa central e meridional e também na África setentironal. Tuber brumale (também chamado de invernale) inferior ao melanospurun, mas às vezes confundindo com ele, e é encontrado em toda a Europa. Tuber (Borghi), ou biancheto ou marzuolo, que se encontra o ano todo e também na Asia, Austrália e América, porém, quando o tamanho é maior, como uma noz, o chamam de Tuber magnatum. Entre outros, podemos também citar: Tuber macrosporum, que é liso; Tuber uncinatum, Tuber brumale moschatum e o Tuber rufum, ou rosetto, este que não é apreciado, mas usado para adestramento dos cães.
O alto custo se dá pela raridade, pela dificuldade de se caçar, e também pela grande procura. Não são todos os anos que há boas trufas. A quantidade vem diminuindo a cada ano, além de que e a procura vem aumentando. Um ano bom com chuvas é bom para os tartufos e ruim para os vinhos. Para se encontrá-las, ou caçá-las como se diz, são necessários cachorros bem treinados, porque elas se desenvolvem junto as raízes de algumas árvores, como carvalho, álamos, tílias, sabugueiro, e umas não mais que 10 espécies, e os cães encontram com o seu faro, indicando a localização para o seu dono, que termina a escavação. Também há porcos que fazem o serviço, mas é muito mais difícil de treiná-los.
As trufas de chocolate têm esse nome justamente por serem moldadas num formato parecido com os tartufos/trufas, e pulverizadas com chocolate em pó para se assemelhar com a terra envolta nessas especiarias assim que são colhidas. Para maior fidelidade, as trufas de chocolate devem ser moldadas de maneira disforme e não redondinhas.
Voltando a feira, é possível se comer polenta com tartufo, que eles fazem num recipiente tão grande que jogam a polenta diretamente de um saco de estopa e a água é de mangueira, porcheta romana, bagasse com lardo de Colonnata, pão com ovo frito e lâminas de tartufo,embutidos, doces típicos, Barolo em copos, isso tudo como se fosse uma quermesse ao ar livre. Há jogos, sendo um deles muito interessante, como se fosse uma pesca, porém com uma argola no lugar de anzol para se pescar uma garrafa de Barolo, onde o tempo é medido por uma ampulheta gigante.

Pesca de garrafas de Barolo, notar a apulheta que marca o tempo da competição

Tacho de polenta cozinhando

Porcheta romana assando
À noite, no entorno da feira, nas ruas próximas ao evento, há muitas barracas vendendo trufas, artigos relacionados e artesanatos. Cada fim de semana os restaurantes do evento fazem um cardápio temático com tartufo. Nessa época, não só em Alba, mas em toda a região e mesmo na Itália se encontra a iguaria nos restaurantes, mas apreciar ali é muito especial.

Tartufos vendidos na feira à noite

Tartufos vendidos na feira à noite
Além da feira, tivemos o prazer de desfrutar um jantar no Restaurante La Rei, do Hotel e SPA Boscareto, que também fica num vinhedo de Barolo (Vigneto Boscareto), onde tivemos uma degustação de tartufo bianco, harmonizado com vinhos da Batasiolo, cujo hotel pertence ao grupo. Foi algo maravilhoso, composto de fonduta de parmigiano, batuto, tajarin 40 tuorli, cuja massa é feita com 40 gemas para cada quilo de farinha! fileto di manzo, tudo com tartufo, digo, muuuuito tartufo.
Na Feirinha nós compramos tartufo para a gente preparar na foresteria, Fizemos: batuto, como já dissemos, um filé mignon na ponta da faca, temperado com um bom sal, pimenta do reino, azeite e, lâminas de tartufo bianco, taglioline, lá, chamado de tajarin, na manteiga e lâminas de tartufo bianco e ovo frito na manteiga com o próprio, enfim, começávamos sempre bebendo um millesime método tradicional, depois Barolo de vinhedo, vários, e terminávamos com um colheita tardia, por vezes, matávamos a sede com alguns brancos. Pedaços de tartufo nos dentes era coisa normal. Enfim, uma experiência inesquecível, sem dizer dos outros 15 dias de gastronomia na Toscana…. Mas essa será contada em outro dia.

Battuto ou Carne Albanese
Além de Alba, é interessante visitar vilarejos próximos, como Barolo, Bra, onde iniciou o movimento Slow Food, La Morra, Asti, Costigliole d’Asti, onde fica a ICIF (Italian Culinary Institute for Foreign), com cursos voltados para a divulgação da culinária e produtos italianos para o mundo, centenas de brasileiros já fizeram cursos por lá; Asti, Verceli, a terra do arroz e Torino ou Turin, onde está o Santo Sudário, tudo isso a menos de 80 km e a pouco mais de 100 km também é possível de visitar Gênova, uma cidade, que além de bonita é tremendamente importante no contexto histórico não só da Itália, onde também é possível visitar a casa onde nasceu Cristóvão Colombo. A gastronomia da região é farta e deliciosa. Não se pode deixar de provar o Agnolotti al plin, uma massa minúscula do tamanho da unha do dedo mindinho e recheada com três tipos de carne, vitelo, porco e coelho, e o vitello tonatto, sem dizer dos risotos, tajarins, que são tagliolines, os melhores são feitos com 40 gemas por quilo de farinha.
É uma feira que vale a pena visitar. Apesar de funcionar somente aos finais de semana, a região é muito bonita e rica de atrativos turísticos e gastronômicos.

Vista geral da feira

Bigoli, para fazer massa, existe até hoje

Primeiros passos para depois fiar e tecer a lã

Tecendo os tecidos

Máquina de debulhar milho

Abrindo a massa com “il materello”

Vinhos envelhecendo nas barricas da Vinícola Batasiolo

Sala de degustações da Vinícola Batasiolo

Nosso anfitrião, o sommelier Angelo Fornaia

Agnoloti Al Plin, típico do Piemonte, divino

Vitello Tonnato, outra maravilha do Piemonte

Produtores de queijos e embutidos em La Morra expondo e vendendo seus produtos

Produtores de queijos e embutidos em La Morra expondo e vendendo seus produtos

Produtores de queijos e embutidos em La Morra expondo e vendendo seus produtos

Produtores de queijos e embutidos em La Morra expondo e vendendo seus produtos

Produtores de queijos e embutidos em La Morra expondo e vendendo seus produtos

Despedida de Barolo